Todo mundo é interesseiro no relacionamento

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Não tem coisa que me deixe mais encafifada do que ouvir um homem dizer que mulher que só aceita se relacionar com homem que possa proporcionar um mínimo de conforto é interesseira, como se eles também não levassem determinados interesses em consideração na hora de “selecionar” uma mulher para algo mais, tal como ser bonita, por exemplo. Acaso isso também não seria ser interesseiro ficar com alguém apenas pela beleza para inflar o próprio ego e não pelo que o outro realmente é? Sim, porque não raro vejo homens que estão com mulheres apenas porque elas são bonitas e, por possuírem tal atributo, encontram-se aptas a calibrar o ego deles, e de maneira recorrente escuto alguns homens falarem que aceitam mulheres com QI baixo, desde que a beleza compense esse déficit.

O que ocorre na verdade é que ambos são, no momento da conquista, inconscientemente interesseiros. Inconsciente porque tais interesses nem sempre são formulados racionalmente. Antes decorrem de necessidades biológicas naturais ou socialmente impostas. Assim, o interesse do homem encontra-se preponderantemente voltado para o estético, uma vez que são seres naturalmente visuais e de quem a sociedade exige competitividade. Observe que já desde a infância, até nas brincadeirinhas de criança, o homem é compelido a assumir posição de liderança, de controle, de destaque dentro do grupo. Assim o peão dele é para rachar o dos outros, a pipa tem que ter cerol para cortar a do outro, brincadeira de bola de gude é para ver quem consegue ficar com o maior número de bolinhas do outro, ou seja, o homem, logo cedo, aprende, introspecta que dentro do grupo ele tem que ter uma posição de destaque, pois socialmente é o que se espera dele, e como culturalmente é o macho quem corteja a fêmea, o que consegue conquistar e fêmea mais bela está demonstrando e provando ao grupo o quanto é competitivo. Note que geralmente os homens que possuem as mulheres mais belas são aqueles mais bem sucedidos, ou seja, os mais competitivos.

Já o interesse feminino incide, dentre outros interesses como ser gentil, atencioso, carinhoso e educado, sobre o financeiro, vez que a mulher tem como uma de suas características biológicas a necessidade de proteção, e em uma sociedade capitalista, o indivíduo mais apto para suprir essa necessidade é aquele com maior acúmulo de capital. O mundo ainda é machista e os homens, por uma questão de ego, não aceitam ser “selecionados” pelo que materialmente possuem, apenas o interesse da mulher assume uma conotação pejorativa e é exatamente aí que “viramos” vagabundas, pistoleiras, interesseiras, putas e periguetes, sobretudo para aqueles homens que não podem oferecer um mínimo de conforto a uma mulher, que quando convidam para sair, só oferecem água e cafezinho e que acham que ter a oferecer a uma mulher apenas uma linguiça entre as pernas já é o suficiente para despertar a atenção dela. Sinto muito, mas mulher é luxo: tem quem pode e a gente não vive só disso!

No entanto, é importante deixar claro que ter como manter uma mulher não dá a um homem autorização para ser um ogro e negligenciar outras áreas que para nós são tão importantes quanto o financeiro, como ser atencioso, por exemplo, pois não há nada que frustre mais uma mulher do que um homem que não a ouve. Mulher também se conquista pelo ouvido e esse ouvido consiste em saber ouví-la e saber o que dizer a ela. Eu diria até que o ponto “G” da mulher é no ouvido.

É comum vermos hoje em dia dentro da ala masculina – principalmente na financeiramente menos abastada – um discurso de que a mulher tem que ser independente, mas todas as vezes que vejo um homem com tamanho interesse na independência de uma mulher, não consigo enxergar nessa pretensão nada mais que algo que ele deseja não por ser bom para a companheira, mas por ser conveniente para ele. Ou você acha mesmo que eles fazem essa questão todinha de que sejamos independentes apenas porque isso é bom apenas para nós? Claro que não! São pouquíssimos os homens capazes de tamanho altruísmo, de modo que esses são exceção e exceção só confirma a regra….rsrsrsrsrsrsrsrs

Então quando ouvimos um homem falar que mulher tem que ser independente ingenuamente podemos pensar: oh, que homem cabeça aberta, moderno. Não se iluda! Ele não está falando isso porque ele é cabeça aberta, muito menos moderno. Ele está dizendo isso movido por um interesse puramente pessoal: tudo que ele quer é tão somente uma mulher fixa com quem ele possa transar, que tenha os filhos dele, que escute os problemas dele, que escute ele falar mal do chefe quando chegar em casa, que prepare a janta, que lave as cuecas dele com freada de caminhão, lave a louça enquanto ele abre uma cerveja e vai assistir TV com várias gostosas rebolando e pensando que bem que você poderia ser daquele jeito com os pés em cima do centro! E O MAIS IMPORTANTE: QUE DIVIDA AS CONTAS  COM ELE, ou seja, uma mulher que lhe proporcione um mínimo de despesa possível e ainda o ajude a pagar as contas. Nada mais conveniente!

Não é à toa que várias pesquisas, dentre elas uma realizada pela Universidade de Brasília, já revelaram que são as mulheres que mais se queixam da relação com seus parceiros e um dos fatores de reclamação é justamente o acúmulo de funções. A mulher, para não ser taxada de encostada, preguiçosa, alpinista social, interesseira, periguete, sustentada, antiquada, Amélia ( mas Amélia é que é mulher de verdade, já dizia Chico Buarque) tem que se sentir na obrigação de trabalhar para ajudar o homem nas despesas. No entanto, como o mundo é injusto, a recíproca não é verdadeira. O homem quando lava a louça, por exemplo, ele nunca acha que está fazendo aquilo porque também é o seu dever. Acham que é um favor, fazem como se fosse um mimo para agradar a parceira, pois na mente masculina, aquela obrigação é DA MULHER. O que é DO CASAL é tão somente a obrigação de arcar com as despesas.

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About Author

Colaboradora do Pergunte a uma Mulher. 25 anos, formada em Direito, adora assistir a um bom filme, apreciar uma boa música, ler um bom livro em uma tarde ensolarada e fresca, escrever sobre suas impressões do mundo e observar e refletir sobre a vida. Afinal, "sei lá, sei lá, a vida é uma grande ilusão. Sei lá, sei lá, só sei que ela está com a razão".