Machismo ou feminismo: é tudo uma questão de conveniência.

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Estava me enrolando muito para escrever esse post por achar que teria que responder pessoas que infelizmente ainda não sabem – ou não querem – ler ou interpretar direito. Depois fiquei com preguiça por não gostar de usar os termos batidos “machismo” ou “feminismo”, até porque não gosto quando me intitulam defensora de qualquer um deles. Acho que esses rótulos são uma grande bobagem que só prejudicam ambos os sexos, e querem fazer entender algo que nem sempre é bem compreendido só porque foi delimitado. No fim, pensei tanto que achei melhor usar esses nomes clássicos mesmo, não por concordar com eles, mas apenas para facilitar a transmissão da ideia.

Antes de ter esse blog, e fundamentalmente depois de tê-lo, sempre percebia nos comentários e atitudes das pessoas (inclusive nas minhas, por que não?!) uma  certa conveniência  ideológica, como se no fundo todos nós – ou seja, tanto homens quanto mulheres – não seguíssemos nenhum ideal no que diz respeito às questões de gênero, a não ser o que é momentaneamente mais conveniente para cada um. Me lembro de uma amiga que sempre levantou bandeira feminista, mas era a primeira a reclamar das biscates e dos mimos que ela não ganhava do namorado, achando que era a obrigação dele dar. Depois me lembrei de um burburinho que houve aqui no blog, gerado a partir de uma questão que defendia ser gentil da parte do homem pagar a conta em um encontro, o que acabou gerando indignação da parte deles, que foram quase unânimes em dizer que mulher que gosta que homem pague a conta é puta e interesseira.

Apareceu então o caso de um leitor que estava com dificuldade em aceitar que sua mulher já ficou com metade da cidade e, mesmo a amando muito, dizia que não conseguia imaginar que ela tinha dormido com tantos ou mais parceiros do que ele. Enfim, não tardou muito para aparecer uma penca de homens discriminando, e nem precisa entrar no detalhe clichê de que eles criticavam “a vadia trepadeira”, mas que se eles tivessem transado com a metade da cidade, iriam correr para contar até para quem não perguntou, porque afinal de contas eles são “muito machos” e colocam sempre a culpa por suas fraquezas na conta do “excesso de hormônios”. O problema é que eles não levam em consideração que, ainda que sejam cheios de testosterona, são seres racionais capazes de tomar decisões que implicam inclusive dispensar uma gostosa, porque sabem que a mulher que eles amam sofreriam, e muito, caso descobrisse isso: opa, será que aí sobrou p** e faltou coração?! Vale a pena acrescentar aqui que, mesmo que ela nunca viesse a descobrir, ele bem que poderia deixar de fazer o ato negativo para merecer a confiança que recebeu, porque afinal de contas valorizar a confiança é portar-se bem, ainda que ninguém esteja te vendo.

Voltando ao caso da conta, nesse mesmo dia apareceram vários homens dizendo que acham super justo a mulher pagar a própria parte, já que ela também comeu e bebeu. Para confirmar essa vontade de não bancar tudo, eles usavam aquele argumento tosco já citado neste texto (da vadia interesseira, lembra?!) e que eles sabem que tocaria grande parte das mulheres. Vou até aproveitar esse gancho para fazer aqui uma observação: não sei por que quando um homem se irrita ou se sente diminuído de alguma forma quer logo chamá-la de puta e de outros termos de igual significado. Alguém sabe dizer o motivo? Bem, eu pensei e conclui que muitos usam essa palavra só porque sabem que ofende mesmo, e pouco importa se ela faz juz à causa. Também conclui que até nessa reação existe um resquício machista embutido, já que as regras de conduta sexual são sempre mais severas para a mulher.

Enfim, senti que na verdade alguns reclamavam tanto da questão da conta por não ter dinheiro o suficiente, mas ok, me contento em deixar a dica que seria mais bonito eles falarem que não pagam a conta toda porque não tem condições e porque ela também consumiu, e não porque ela é oportunista ou puta. Por sinal, não entendo até hoje porque alguns homens cogitam a possibilidade de uma mulher querer sair com eles em troca de um prato de comida e um cineminha, e não porque gosta deles!! Cá pra nós, tem que estar abaixo da linha da pobreza para sair com alguém só porque a pessoa paga a saída, pois nem uma prostituta iria querer isso por saber que não vale as horas perdidas, nem a maquiagem, nem o salão. Ou alguém aqui acha que se preparar para sair sai barato? Inclusive no que diz respeito ao tempo, porque pelo menos o meu vale muito.

No fim, esses homens preferem achar que pagar a conta é serem usados por uma desocupada e não uma questão de educação; educação essa que claro que nós mulheres nos aproveitamos por ser uma das poucas coisas boas que o machismo nos deixou, e que se comparada às várias coisas boas que o machismo deixou para os homens e que eles continuam exigindo até hoje, não é nada. Querem exemplos? A esmagadora maioria dos homens ainda quer uma boa dona de casa, pouco rodada (ou virgem de preferência), e claro, muito bem cuidada apesar dos afazeres domésticos e familiares: ou vão dizer que não?!

Não entendo por que ambos os sexos não percebem que todos se aproveitam daquilo que o outro pode dar de bom, e que isso é algo inerente ao ser humano, que pode sim ser aceito desde que não humilhe e nem deprecie ninguém. Do que adianta ter um relacionamento onde tanto o homem quanto a mulher são autossuficientes e sabem fazer de tudo, ainda que no fim cada um só cuide do que está afim de cuidar e do pezinho que sujou, porque se o outro sujar é problema dele e tudo aqui é divididinho, porque é moderno e a sociedade “anti machista super justa”, que diga-se de passagem nunca deixou de ser machista, dita assim. Todo mundo se aproveita e gosta da gentileza alheia, e não podemos negar o fato que se colocado na balança, isso não só é bom, como movimenta um relacionamento que passa a ter mais coisas boas do que ruins, sendo estas materiais ou não.

Continuando o “causo”, depois voltei minha atenção aos argumentos que aconteceram a partir de um post que dizia que o homem que AJUDA no lar tem mais sexo garantido, e que, modéstia à parte, mostrou um raciocínio claro e lógico para quem se dá ao trabalho de ler. Mesmo com tamanha clareza, me surpreendi com alguns homens que alegaram que fazer isso é trocar limpeza doméstica por sexo, e ninguém se tocava que AJUDAR não é fazer tudo sozinho, mas sim lembrar que também come, caga (com o perdão da palavra) e dorme, e que se ele ajudar com a parte dele, naturalmente – ou melhor, matematicamente – sobraria mais tempo para o casal. Vocês já pararam para pensar que hoje em dia as mulheres sabem fazer tudo que os homens fazem, mas que a recíproca não é verdadeira? Pensem bem e sejam sinceros na resposta.



Depois disso, vi esse texto compartilhado no facebook de uma MULHER dizendo que agora já sabe “como explorar os homens”, e aí sim eu fiquei surpresa: os homens venderam tanto essa ideia, que no fim muitas mulheres passaram a acreditar que cuidar da casa não é nada mais do que a obrigação delas, e que deixar um homem ajudar é escravizá-lo. Seria essa a síndrome da mulher machista?! Só acho que ela se esqueceu que fora cuidar da casa, ela também trabalha fora, cuida do filho, e ai dela se não ir para o salão ficar linda e gostosa para o parceiro, que depois ainda pode traí-la com uma outra mais interessante, alegando que a mulher não é mais atraente como antes, claro! Sem contar que essa mulher provavelmente também terá que ajudar nas contas de casa, mesmo que ela esteja fazendo o trabalho da mulher antiga MAIS o trabalho da mulher moderna.

No fim, não existe nem machismo, nem feminismo, mas sim uma questão de conveniência para ambos os sexos: rachar a conta pode porque ela também come, mas cuidar da casa o homem não pode porque certamente vive de fotossíntese e nem vive por lá. Lembrando que na cabeça dele se ele ajudar em algo ou é favor, ou é porque espera sexo em troca. Ela transar com outro não pode, porque o homem vai ficar com nojo, vai ficar traumatizado, vai mexer com o coraçãozinho e o estômago dele, mas ele transar com todo mundo pode, porque para piorar, algumas mulheres acreditam que isso é coisa de macho, que é da natureza masculina, e ainda passam isso para os filhos. 

Tenho que admitir que muitas vezes os homens são muito, mas muito mais espertos do que a gente: eles aceitam apenas o que convém aceitar, e ainda denigrem as mulheres que ainda tentam ter a parte boa do machismo para elas. Lembrando que grande parte deles nunca deixaram de fazer uma homenagem em off no banheiro para as “vadias”, que claro que eles nunca irão assumir ou se casar.

Quem nunca ouviu o ditado popular: “prendam suas cabritas que meu bode tá solto?” Nisso não deixo de me perguntar: será que no relacionamento temos que fazer apenas o que é legal e confortável para o homem, preservar a parte do machismo que ajuda eles e se esquecer da nossa? Conveniência e interesses todo mundo tem, e seria bonito se todo mundo admitisse isso.

Machismo ou feminismo?! Duas grandes bobeiras criadas pela conveniência.

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Luiza Costa

Brasiliense morando em Curitiba. Escritora, blogueira, youtuber. Espero te encontrar todos os dias nas redes sociais pra que possamos debater os mais variados temas e crescermos juntos.