Minha experiência como Crossdresser (CD)

50

Hoje temos o depoimento de um Crossdresser que tenho certeza que esclarecerá as dúvidas de muita gente, a começar pelas minhas, rsrs.

*********************************************************************************

Achei legal a ideia para ter a oportunidade de esclarecer melhor a quem achou estranho, ou até mesmo bizarro, esse negócio de homem heterossexual que tem a fantasia de se vestir de mulher. “Como assim hétero que se veste de mulher? E eu sou o Batman!” Claro que quem achou isso tem o direito de continuar achando, bem como achar uma pouca vergonha, se for o caso. No entanto, convém sempre ter uma postura cautelosa antes de sair criticando o que não conhecemos bem.

Vou tentar contar um pouco do que é ser CD (crossdresser) para mim, baseado nas minhas experiências pessoais e também no que aprendi através da internet, lendo relatos de outras crossdressers. Mas deixo bem claro que não procuro falar em nome de uma categoria ou coisa do tipo, pois acho que isso seria uma grande besteira (cada um tem a sua história).

Não recordo quando “tudo começou”. Lembro que sempre fui uma criança tímida e retraída, sem muitos amigos. A figura feminina sempre me atraiu, mas de dois diferentes modos. Por um lado eu era atraído pelas mulheres, de uma forma precoce até. Observava as meninas e também as mulheres adultas, imaginando coisas picantes com elas. Não só as mulheres em si, mas todo o contexto relacionado a elas, ou seja, o universo feminino em geral, como mulheres usando roupas sexys, bem maquiadas, unhas pintadas e bem feitas, etc.

Por outro lado essas coisas do universo feminino me atraíam em si mesmas. Ou seja, além de me sentir atraído pelas mulheres, de algum modo eu tinha uma curiosidade – que acabou se tornando um desejo – de me ver como elas, podendo usar aqueles lindos vestidos, usando maquiagem, ter cabelos compridos etc.

A situação pode parecer confusa, mas a verdade é que essas duas coisas sempre conviveram em mim. Mas nunca senti atração por meninos e garanto que nunca cheguei nem a tocar em algum (como os famosos trocas-trocas).

Eu não tinha jeito afeminado, mas não era um típico menino normal, que gostava de brincar na rua, empinar pipa, etc. Nunca fui chamado de “bichinha” ou coisas do tipo, porém sempre fui considerado o menino esquisito, por ser muito tímido e pouco enturmado.

Com cerca de 11 anos eu tomei coragem e passei o meu primeiro batom, escondido no banheiro. Foi uma emoção nova, uma sensação de realização misturada com o medo de ser descoberto. A experiência tinha que voltar a ser repetida e de fato acabou se tornando um costume. Sempre que estava sozinho em casa passei a vestir roupas da minha mãe ou irmã, me maquiava com batom, lápis, rímel, o que mais estivesse disponível. Se houvesse uma peruca iria amar (o máximo que consegui foi um daqueles chapéus de festa junina com umas trancinhas penduradas rs). Nessa idade os sapatos da minha mãe já quase não me serviam, mesmo assim eu os usava, ficando com parte do pé para fora.

Desfilava pela casa dessa maneira, me sentindo uma linda mulher. Aos poucos fui sentindo vontade de algo mais. Eu queria interagir com alguém como mulher (não falo sexualmente, mas apenas conversar com alguém que me tratasse como mulher). Vale lembrar que na época ainda não estava difundida a internet. A solução que eu encontrei foi pegar a lista telefônica e ligar para salões de beleza pedindo informações sobre corte de cabelo, depilação, unhas, ou até mesmo dia da noiva rs, tornando a voz o mais feminina possível. A sensação de prazer foi enorme em “ser mulher” ao telefone. Além do prazer especial em escolher nomes como Michely, Vanessa e ser chamada por Tais. Confesso que preferia mil vezes quando quem atendia era mulher, pois interagir com uma me fazia sentir estar sendo tratada por outra mulher como uma “igual”, o que aumentava a sensação de estar sendo mulher.

Paralelamente a isso continuava sem ser um garoto popular na escola. Apesar de ser um menino considerado bonito, nunca tive coragem de chegar em uma menina. A verdade é que se fui namorar depois de adulto, por incrível que pareça.

A prática crossdresser foi parando conforme eu ia vendo que já estava crescido e com muitas características masculinas. Não é que a vontade tenha diminuído, é que agora como rapaz quase homem o resultado daquelas produções amadoras não era satisfatório, aquilo não me satisfazia mais. Isso sem falar no medo em ser descoberto. Por isso aos poucos parei com esse costume de me “montar”. Mas no fundo mantinha a vontade de poder me produzir belissimamente, utilizando-me de todo o arsenal disponível em maquiagens, perucas, etc, tal como as transformistas da TV. Mas era um sonho impossível, impraticável.

Até que aproximadamente em 2006 eu passei a acessar regularmente a internet e descobri, por assim dizer, um outro mundo. Descobri o termo crossdresser e vi que havia muitas outras pessoas com histórias muito parecidas com a minha. Eram meninos que durante anos mantinham externamente a postura de homens normais e viris mas que guardavam em segredo esse desejo de ser menina.

As histórias variavam bastante. Algumas dessas crossdressers que eu descobri eram meninos afeminados, que se identificavam plenamente com o sexo feminino. Eram na verdade transexuais em fase de descoberta, ou seja, desses meninos que na escola são atormentados chamados de “viadinhos” e coisas semelhantes.

Outros casos, porém, eram de homens que sempre levaram uma vida normal como meninos, muitas vezes sendo “pegadores” de garotas, praticante de esportes (podiam ser inclusive os tais meninos populares dos colégios). Percebi que esse “fenômeno”, se assim se pode chamar, não atingia somente pessoas com determinado tipo de comportamento aparente, mas que de fato qualquer um poderia ser uma crossdresser.

No entanto verifiquei também um aspecto bem pouco, digamos, glamouroso. Vi diversas “CDs” que entendiam que ser crossdresser era vestir uma calcinha e tirar fotos da bunda, muitas vezes peluda, colocando no orkut. Isso sempre foi algo bem bizarro pra mim, pois pra mim aquilo não tinha e não tem nada a ver com a feminilidade, a qual eu entendo ser se comportar e se vestir como uma mulher de classe, em todos os seus aspectos; ser sexy sem ser vulgar. Inclusive, imagino que quem nunca tinha ouvido o termo crossdresser e tenha resolvido pesquisar na internet – após a matéria anterior aqui do site – tenha se deparado com fotos assim e logo concluído que essa prática não passa de uma grande promiscuidade generalizada. Não é bem assim. Existem casos e casos como eu disse.

Acredito que um bom número de pessoas que procuram apenas sexo – gays que curtem ser passivos e sabem que certos homens curtem isso – embarcaram nessa onda, se denominando CDs e oferecendo suas bundinhas com calcinha na internet. Não que eu critique quem faz isso. Mas entendo que o que mais fascina a crossdresser de verdade é viver o universo feminino como um todo, procurando alcançar o máximo possível a imagem de uma mulher.

Outro detalhe: eu enfatizei anteriormente o fato de ser CD não ter nada a ver com ser gay, o que é verdade. Mas não quer dizer que toda CD seja heterossexual. Pelo contrário, existem as que saem com homens sim. Não vou esconder um aspecto bem “perigoso” do crossdressing: a fantasia de se ver como mulher pode acabar provocando uma certa curiosidade em querer estar com um homem. Afinal, se a imaginação de uma CD quer viver a experiência de ser uma mulher de verdade, é até natural que ela acabe por imaginar situações em que está se entregando a um homem (afinal para viver plenamente a experiência de ser mulher, só mesmo sendo vista como tal por um homem). Acredito que algumas vivam essa fantasia apenas na imaginação, enquanto outras acabam partindo para a uma situação real. Nesse caso acho que podem acontecer duas coisas: não gostar e nunca mais repetir ou acabar gostando.

Não tenho condições de analisar esse aspecto a fundo, mas posso dar alguns palpites: provavelmente boa parte das CDs sejam homossexuais que não se aceitaram ou não se descobriram ainda, fazendo com o crossdressing seja uma porta de entrada para isso. Outra parcela dos casos consiste naqueles que são apenas heterossexuais, mas cuja fantasia em ser mulher os leva a ter pensamentos eróticos em que desempenham o papel de mulher no sexo. Eu diria que essa é a principal contradição que pode ser encontrada nesse mundo crossdresser. Se tal indivíduo decide abandonar a simples fantasia e partir para a real com um homem poderá ainda assim ser considerado heterossexual? Seria válido o argumento se ele dissesse ser 100% hétero como homem, e sair com homens apenas para satisfazer o seu ego alternativo feminino? Cada um fique à vontade para dar a sua resposta. E finalmente temos as CDs cujo único interesse é viver o universo feminino, não tendo nenhuma fantasia de estar com um homem. Muitas dessas procuram até mesmo mulheres que aceitem esse lado feminino e curtam “montá-las”.

Depois desse apanhado geral sobre o crossdressing, voltemos um pouco à minha história: desde que passei a ser CD na internet consegui em 3 ocasiões, após reunir uma certa coragem, marcar uma hora com uma pessoa (foram pessoas diferentes em cada ocasião) para me produzir do jeito que eu sempre quis. São maquiadoras (em um caso foi uma mulher, nos outros dois duas travestis). Deste modo pude realizar essa fantasia de me ver como garota e tirar algumas fotos, sensação maravilhosa para mim. Gostaria de fazer mais vezes, mas é complicado fazer tudo com discrição, especialmente agora que estou namorando (uma mulher, claro). Nem preciso dizer que até a presente data ninguém sabe desse meu lado oculto e não sei o que faria se alguém descobrisse.

Penso que talvez o melhor seja parar de fazer isso, especialmente depois que me casar. Mas a verdade é que imagino que não será fácil.

Por: Alessandra Velasquez

 ***************************************

Entrevistamos um Crossdresser, diferente desse que colaborou com o blog e que vale a pena dar uma olhada clicando aqui! Também aconselho a leitura do relato da Crossdresser gay e super assumida, a Sayuri!

Também fiz um vídeo sobre homens que curtem usar calcinhas, nem todo mundo chama de CD, mas está aí!

Instagram
Share.

About Author

Luiza Costa

Brasiliense morando em Curitiba. Escritora, blogueira, youtuber. Espero te encontrar todos os dias nas redes sociais pra que possamos debater os mais variados temas e crescermos juntos.