Troca de senhas: você precisa mesmo dar a sua?

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É certo dividir as senhas com seu namorado(a)?

Vim falar sobre um assunto que faz parte do acordo implícito entre casais sobre limites. A famosa troca de senhas entre namorados.

O casal começa a namorar, tudo parece lindo, como todo início de namoro, mas depois de algumas semanas, determinadas inseguranças começam a surgir para quem é ciumento demais. Uma pulga começa a dar sinal de vida atrás das orelhas dos dois, ou pior, de um dos dois, apenas. Um banho não vai tirar a pulguinha dali, mas talvez ela vá embora se a pessoa desconfiada pedir a senha do Facebook, ou qualquer outra rede social, por exemplo. Na cabeça de quem é inseguro e está com ciúmes, a desconfiança que surgiu de que o(a) namorado(a) pode “inocentemente” dar trela demais para alguma(algum) amiga(o) será resolvida tendo a senha do outro para observar as conversas com a(o) fulana(o), sendo que, no fundo, isso só mostra falta de confiança em si mesmo e no outro. Como consequência dessa falta de autoestima e invasão de espaço, aparece a curiosidade de saber com quem o namorado(a) conversa todos os dias, se realmente ele(a) faz o que diz fazer nas redes sociais…

Infelizmente, por ciúmes, algumas pessoas acham que, por estarem juntas, não devem ter segredos naquela lógica básica de que se não devemos nada, não temos o que esconder. Logo, para esses ciumentos, não haveria problemas em ver o que ele ou ela escreve, curte, publica e conversa com os amigos (especialmente com quais amigos conversa). Às vezes, os paranoicos têm a infeliz ideia de que é até mais prático fazer um perfil conjunto, assim todos vão saber que estão juntos, que são um só e confiam plenamente um no outro. Chega a ser deprimente pensar nisso, mas acontece…

Longe de querer discutir o impacto do Facebook nos relacionamentos (por enquanto!), essa ação de trocar senhas com o outro levanta certas questões que gostaria de discutir com vocês. Afinal de contas, se você acha isso natural, antes precisa levar em consideração o aspecto negativo de dividir assuntos e atitudes antes reservadas apenas para você mesmo ou ao outro.

Quero fazê-los pensar sobre as consequências de pedir permissão a seu namorado para fuçar a vida dele, ou vice-versa; bem como conhecer o que as pessoas de fora pensam sobre isso quando acabam envolvidas sem querer no acordo que teoricamente seria só entre vocês:

 

Falta de privacidade:

Ler tudo o que seu(sua) namorado(a) escreve para outras pessoas vai fazer você confiar mais nele(a)? Sabendo que estamos sendo observados, em algum momento vamos agir de forma diferente do usual, e isso parece inevitável. Afinal de contas, a pessoa vai pensar mil vezes antes de escrever as coisas e acabar levando um problema monstro para casa – e se for mais azarada, para a cama. Pensem um pouco nisso: se a pessoa não será ela mesma por saber que está sendo observada, qual é a graça de ter a senha dela?

As conversas do casal poderiam ser lidas quando desse vontade, ou quando houvesse uma desconfiança. Porém, sabemos que tudo que é escancarado pode ser posteriormente utilizado contra nós mesmos, e aí entra o problema maior: em um dia de briga e nervosismo, o espião (ou pessoa que se sente traída) tende a se munir com todas as armas disponíveis, ou seja, com aquele monte de informação que foram captadas das redes sociais a respeito da sua digníssima pessoa, e isso muitas vezes significa anarquia! Descobrir coisas que, para o “culpado” eram inocentes ou facilmente explicáveis, podem virar um baita problema e gerar mágoas desnecessárias antes mesmo do réu conseguir o direito de se explicar.

Além do mais, quando existem brigas, o normal é correr para os amigos para conversar, pedir conselhos e etc. Você realmente quer saber o que seu(sua) namorado(a) fala de você quando vocês brigam ou discutem? Para jogar na cara quando a briga já foi resolvida, ou para aumentá-la quando vocês ainda estão emburrados?

 

Falta de identidade:

Aquela história de encontro de almas é maravilhosa. Mas prestem atenção ao verbo: encontro. Não é fusão. A matemática tá certa, um mais um sempre será igual a dois. Não adianta forçar a barra.

Vocês são pessoas diferentes, com família e amigos diferentes, gostos diferentes e maneiras de tratar os outros ou determinados assuntos igualmente distintas… Têm suas semelhanças, senão não estariam juntos, mas naturalmente cada um tem sua essência. Preservem isso. Vigiar alguém é tentar controlar uma vida que não é sua. E se está difícil cuidar da nossa própria vida, imagina da pessoa com quem estamos?

Além disso, é tirar o direito do outro ter a sua própria vida. É forçar seu(sua) companheiro(a) a dar satisfações de assuntos que não dizem respeito a você, ou até a terceiros.

 

Situações desagradáveis:

Vamos mudar um pouco o ponto de vista. Pense no seu constrangimento ao entrar em uma rede social e não ter a certeza de que quem acessou o bate-papo por último não conversou com seus amigos e apagou o histórico?

Ou imagine que você foi falar com um amigo seu e descobre que, “surpresa!”, não era seu amigo quem estava falando ali! Você estava falando com a namorada dele, que estava na conta e não te avisou porque estava curiosa para saber como vocês interagem, e quem sabe querendo jogar verde pra colher maduro.

E os amigos dele(a)? Já imaginou o quanto é desagradável para eles um dia saberem que a vida particular deles pode ser fuçada a qualquer momento? Eles são amigos do seu amor, não são seus amigos e a privacidade entre eles também deve ser respeitada; ou ele não pode mais ter amigos e já virou sua posse total? Se “fulaninho de tal” não é seu amigo, é normal que ele não queira que você saiba sobre coisas que não te dizem respeito. Ele desabafou com o seu namorado, não contigo e seria um tanto quanto desagradável saber que você sabe até o que ele comeu no almoço, sendo que ele nem te conhece. Ter que saber sobre a vida de pessoas que nem sabem da sua existência e, ao contrário do seu namorado, tampouco te deram permissão para isso, é algo um tanto quanto inconveniente, não acha?

 

A permissão: 

“Mas o relacionamento é meu, ele(a) permitiu que eu visse porque não tem nada para esconder de mim. Concordou, então qual é o problema?!”

Principalmente nos primeiros tempos de namoro, que geralmente é quando o casal opta por dividir as senhas, convenhamos que tudo está na mais perfeita ordem. Ninguém vê sentido em se desentender por besteira nessa época, até porque a paixão está crescendo e chegando ao auge conforme os dias passam. Você pediu, e pareceu sim uma prova de confiança absoluta. As pessoas não pensam direito quando estão felizes!

Também há aquele lado que não gostamos de pensar: a outra pessoa pode aceitar passar as senhas por querer evitar uma briga, por querer evitar o questionamento básico: por que você não confia em mim? E até por medo de perder quem adora!

As consequências da invasão de privacidade valem para os dois. Embora os comentários pareçam unilaterais, eles não são: as perguntas chatas e que poderiam ser facilmente evitadas chegarão para ambos. Pode demorar um bom tempo, mas elas vão chegar um dia.

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Enfim, esse é um assunto que pessoalmente me incomoda, porque acredito muito que confiança não é a ausência de segredos, mas sim saber que você pode contar com aquela pessoa para qualquer coisa que precisar. É mesmo sem ver, saber que o outro tem bom senso e respeita você. Confiança é fé. Não precisa acreditar em absolutamente tudo o que ele(a) diz, só que não precisa previamente desconfiar do que ainda nem aconteceu e levar o relacionamento como se fosse um Big Brother virtual.

A quem acha que trocar senhas entre namorados é prova de amor, gostaria de provocar uma reflexão: não tão antigamente assim, transar também era prova de amor. Sendo que nos tempos atuais nós já descobrimos que uma coisa não tem nada a ver com a outra (pelo menos eu espero)!

Ao proteger a sua conta do Facebook com uma senha que apenas você sabe, você também estará fortalecendo o seu relacionamento ao preservar a sua individualidade e, consequentemente, você também estará respeitando a privacidade de quem ama!

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About Author

Nivia Fernandes

Colaboradora do Pergunte a uma Mulher. Sou uma estatística (é sério!) que além de números aprecia uma boa leitura. Paulista que fugiu para o interior porque gosta de calmaria. Acredito que cada um cuidar da própria vida dá trabalho o suficiente, mas se for para ajudar de coração, por que não dar uma mãozinha com um conselho de cabeça fria? Por isso estou aqui. Adoro internet, livros, gatos, música, zoeira e nerdices.