O que faz as pessoas não conseguirem sair de um relacionamento abusivo?

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Caso julgue necessário, leia o primeiro texto dessa série: Você saberia realmente identificar se está em um relacionamento abusivo?

O que faz homens e mulheres não conseguirem sair de um relacionamento abusivo?

Ao contrário do que pensam alguns, a violência doméstica não obedece níveis sociais, econômicos ou de gênero. Abaixo eu retratarei quais as principais causas que mantém uma mulher em um relacionamento abusivo.

PS: Apesar de constantemente usar o feminino, muitas coisas servirão para o sexo oposto também.

  1. Estrutura Familiar

Quando nos tornamos adultos, há a tendência de reproduzir o padrão familiar. A filha que vê a mãe sendo agredida busca, ainda que de forma inconsciente, constantemente repete essa estrutura que já é conhecida e procura um homem com o perfil agressivo. Quando a agredida está imersa num contexto familiar violento, ela não percebe sua condição.

  1. Criação Submissa

Eu sempre digo que a mãe tem o poder de castrar um(a) filho(a). Na infância, o papel materno, ou quem o represente, exerce grande influência e as crenças limitantes são passadas ao filhos, de forma constante e bem sutil. Muitas mamães e vovós, quando eram crianças, foram bombardeadas com frases castradoras, numa época em que as mulheres não poderiam se divorciar, pois era motivo de desonra. O que eu quero dizer é: a resignação continua sendo cobrada do papel feminino. E ainda nos dias de hoje, esse pensamento limitador ainda perpetua o imaginário de muitas mulheres abusadas que pensam que, se largarem o marido, poderão ser julgadas socialmente ou mal acolhidas no seio familiar, etc.

* Faço um adendo nesse ponto: Tenho observado que há algo que acontece em relação às mulheres, mas não com a mesma frequência quanto aos homens. Em geral, a família da mulher agredida tem ciência do ocorrido e muitas vezes até incentiva a mulher a continuar na relação! É o famoso: “ruim com ele, pior sem ele”. Entretanto, quando o homem é a vítima da agressão, ele esconde isso de forma muito mais eficaz. De forma geral, o homem agredido não demonstra tristeza ou mudança de comportamento. O tabu da vergonha o impede de qualquer exteriorização. O porquê pormenorizado disso será tratado no próximo texto.

  1. Culpa

Majoritariamente, a culpa sobrevém em casais com filhos menores. O agressor manipula a mulher para que permaneça na relação, fragilizando-a com a dificuldade em criar os filhos. Os argumentos utilizados pelo agressor são variados e vão desde: “Eu vou levar seus filhos comigo”, “Você não é capaz de criá-los sem mim”, ou até “Se você me deixar, eu vou matar todos eles”. Quando há filhos de uma relação autodestrutiva, essa causa é a que mais influencia as mulheres a não abandonarem os pais dos seus filhos.

  1. Merecimento

Assim como a Juliana do caso contado no primeiro texto dessa trilogia, muitas mulheres acham que são agredidas por merecimento: não cozinharam direito ou esqueceram de passar a roupa. Nessas situações, a mulher acredita fielmente que ela é a pólvora da violência. Ela aceita o papel de incentivadora e faz de tudo para evitar novas explosões do companheiro.

  1. Resistência

É aqui que surge a zona de conforto. Há mulheres que são resistentes ao que é estranho e desconhecido. Elas até podem ter alguma noção da abusividade em que vivem, mas não acham possível ou seguro que o contexto se altere. Não há qualquer crença de que a Justiça possa funcionar e tem receio de possíveis retaliações.

  1. Baixa Autoestima / Insegurança

Ah… A tão falada autoestima. Ela anda de mãos dadas com a violência doméstica. Autoestima nada mais é que a maneira como a gente se enxerga em relação a nós mesmos. O sentimento que nutrimos em relação a nós reforça os acontecimentos em nossa vida. Esse é um requisito indispensável antes de ter qualquer relacionamento. Se eu sou uma pessoa insegura e me sinto incapaz, atrairei perfis de homens que comprovarão isso.

  1. Defeito Tolerável

Esse último tópico é decorrente do condicionamento familiar. Quando somos criados num determinado contexto, aquilo se torna nosso conhecido. Qualquer alteração de padrão gera um estranhamento. Ou seja, por mais negativo que aquilo possa parecer aos olhos dos outros, é com o qual estou acostumada. Assim, a violência doméstica passa a ter o mesmo peso que qualquer outro defeito. Para essas mulheres, ter um parceiro que tem como defeito a violência é o mesmo que ter um companheiro que trabalha demais ou que é ausente na criação dos filhos.

Agora, falaremos sobre um assunto pouco falado: a agressão contra os homens.

O que faz as pessoas não conseguirem sair de um relacionamento abusivo?

Enquanto o homem costuma fazer mais uso da força física para se impor, a mulher utiliza mais da violência psicológica. As razões que fazem com que um homem permaneça numa relação autodestrutiva podem ser parecidas com as razões das mulheres. Mas há nuances diferentes. São algumas delas:

  1. Vergonha

Quando as mulheres são agredidas, em geral, a família dela tem conhecimento e até compreende o agressor (isso foge do senso comum e daria um outro texto, eu sei. Se quiserem um texto só sobre o assunto, deixem nos comentários!). Mas o oposto ocorre quando o agredido é um homem. A vergonha que o homem sente em ser humilhado ou agredido fisicamente é tão, mas tão grande, que dificilmente ele compartilha com outra pessoa. Nega inclusive para o melhor amigo. Isso tem como base toda a nossa cultura machista e patriarcal de que “homem não chora”.

  1. Conceito Familiar e Autoestima

A figura da mãe, ou quem a represente, é parte crucial no desenvolvimento emocional do filho. Sendo resultado de suas idealizações, a mãe (ou quem exerça seu papel) pode fazer com que o filho permaneça dependente e incapaz de se desenvolver por si só. Não sendo bem trabalhada, essa dinâmica familiar se perpetua pela vida adulta do homem, que passa a buscar em suas parceiras a sensação conhecida que ele tinha com a própria mãe: a de ser insuficiente.

  1. Dependência Emocional

A relação amor-ódio é tão bem vincada que o agredido não vê uma saída. A única saída que ele conhece é a de minimizar os danos. O que eu quero dizer é: em geral, desde que nascem, meninos são criados para não chorar, não sofrer e “ai” dele se ser ou pensar diferente, ouvirá sempre um “Vira Homem, menino!”. Em virtude disso, eles são ensinados que o mais seguro é não se expor e não falar no assunto. Com ninguém! Apesar de existirem, a agressão aos homens situa-se num campo que não deixa marcas visíveis: o campo emocional. E aí surge aquele “se eu não vejo, não existe”.

  1. Expectativa Alheia

Quando nascemos, nos são dados alguns papeis. Nossa cultura exige do homem sinais de sua virilidade e força física. Ah… O macho-alfa. Se o homem deixa de cumprir perfeitamente o papel social, é levado para escória da sociedade. Isso dificulta denúncias de agressões por parte dele. O medo de represálias por parte da própria família o leva a negar a própria condição. Afinal, ele se vê obrigado a corresponder às expectativas geradas pelos outros, o que gera um enorme peso.

Homens ou mulheres, denunciem: Disk 180

Ou se quiserem apenas conversar, Disk 141: Telefone do CVV, que vale não só para quem sofre violência doméstica, como pessoas que estão sofrendo com depressão, vontades suicidas, etc.

Procure ajuda, você pensa que está, mas não está sozinho(a).

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Semana que vem darei dicas práticas para te ajudar a sair dessa!

Texto anterior: Como saber se você está em um relacionamento abusivo?

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About Author

N.S.

Ex-Psicóloga. Ex-Delegada. Postarei textos semanalmente afim de ajudar aqueles que sofrem violência doméstica/ relacionamentos tóxicos, talvez quatro. Por meio deles, espero que encontre sua paz! =)

  • mariana cobra

    Vc recebe o amor que acredita merecer.
    Muitas pessoas continuam em relacionamentos infelizes por não acreditarem que há algo melhor da porta para fora, aí perpetuam o sofrimento.
    Haja sanidade para quem foi criado num ambiente hostil e de deturpação do amor, companheirismo e modelo de relacionamento saudável.

    • Rogih

      “Vc recebe o amor que acredita merecer.”

      Concordo em tudo com você, quem leva a vida como martelo acaba vendo tudo como prego para martelar.

      “Muitas pessoas continuam em relacionamentos infelizes por não acreditarem que há algo melhor da porta para fora, aí perpetuam o sofrimento.”

      A pessoa sem esperança está presa ao sofrimento sem ver luz no fim do túnel.

      Eu descobri que sempre vou ter uma escolha, nunca sobre o outro mais sempre sobre mim.

      Acho que as coisas são bem por ai…

      • ou nem percebem que a pessoa é “ruim assim”

        ainda mais se constantemente ela pede desculpas e “volta a ficar boa”, ainda q apenas até o próximo surto….

        • Rogih

          Tá aí uma coisa que eu estou tentando eliminar da minha vida, ficar dando desculpas para as coisas pois elas não ajudam em nada, o melhor é assumir e tomar a responsabilidade.

          • Paulo

            o melhor é nunca fazer nada que vc se arrependa ou que gere um efeito colateral ruim!

        • someone

          Como eu comentei no primeiro texto, foi complicado pra mim lidar com meu relacionamento pq envolveu uso de drogas, surtos, etc. Li bem no início desse texto que quando uma criança v~e a mãe ser agredida tende a tomar como padrão e achar aceitável. Eu fui o oposto, embora entenda os casos de pessoas assim. Minha mãe apanhou muitas vezes do namorado, desde q eu era bem pequena. Me dava raiva por não poder fazer nada, embora eu me avançasse nele qdo ele ia pra cima dela e ficasse chutando as canelas dele. Com 6 anos não é muito eficaz, mas em geral ele dava uma segurada. Tudo isso me fez jurar nunca passar por isso. E nunca passei. Até reencontrar o primeiro cara por quem me apaixonei aos 16 anos, anos dps. No primeiro ano foi tudo só amor, mas ele mudou ao vir morar aqui. Voltou a usar e começou a ter surtos bem agoniantes, primeiro rasgando roupas e bolsas, dps tendo crises de ciúme doentias, vendo coisas qdo usava..e confesso q a primeira agressão física foi minha contra ele, mas queria uma opinião sincera: dps do stress emocional de ficar se controlando vendo alguém estragar coisas w tu gostas e ralou pra adquirir ou q foram presente de alguém da família, ouvir xingamentos super pesados e sem motivo, se uma pessoa pega um cutelo na cozinha no meio de um surto e começa a tirar pedaços de paredes, dizer coisas sem nexo e vem na direção da porta do quarto onde tu está e não larga aquilo dps de tu realmente implorar pra ele parar e e respirar..ter um instinto básico, pegar uma garrafa de vinho q está ao alcance da mão e bate nele com ela num surto de pânico dele realmente passar uma faca de corte de juntas em açougue até ele largar , pedindo pra el largar desde antes até o momento em q ele caí na real e nota o q tá havendo, sente a dor, whatever..é autodefesa ou eu surtei tb e virei uma agressora? Pq não foi por qq motivo fútil, foi realmente uma reação instintiva de medo..mas por muito tempo me senti super culpada de ter agido por impulso..

    • eu tenho uma colega q não chega a ser relacionamento abusivo, mas o cara é bem traste e ela fala ”ah com o tempo acho q ele vai mudar”

      ai só penso: fia, mude vc, e RÁPIDO rs

  • Rogih

    N.S, Ótimo texto! Esta levando essa missão com maestria, que bom que está transformando sua experiência e seus conhecimentos em algo positivo para ajudar e sugerir um caminho melhor para as pessoas, mesmo que para isso seja um pouco chocante tomarmos conhecimentos de comportamentos tão ruins que praticamos mesmo sem saber, parabéns!

    Quando as mulheres são agredidas, em geral, a família dela tem conhecimento e até compreende o agressor (isso foge do senso comum e daria um outro texto, eu sei. Se quiserem um texto só sobre o assunto, deixem nos comentários!)

    Poderia escrever um texto só sobre esse assunto? Seria legal ler
    e apreender mais sobre esses comportamentos.

    Algumas mulheres que sofrem agressões de homens acreditam que se tratou apenas de um fato isolado, e que diante das promessas deles, eles iram se reabilitarem imediatamente. E não é verdade muito provavelmente serão vários ciclos de agressões físicas e morais.

    Um homem que agride uma mulher quer molda-la e forçar ela a agir conforme a vontade dele, e se ela pisa fora dessa linha imaginaria de acordo com os valores e princípios deturpados dessa mente doentia, o cara perde os parafusos e parte para agressão.

    Uma pessoa que agride a outra se torna perigosa, desliga seus valores, seus princípios, seus juízos e passa a agir de uma forma bestial, é uma pessoa imprevisível pode fazer algo grave de uma hora para outra. Ficar em um ambiente sem respeito, segurança e confiança com uma pessoa assim é como andar a todo o momento com medo de pisar em ovos, com medo de quebra-los é um verdadeiro tormento.

    Depois disso o agressor ira representar um papel digno de premiação, o agressor arrependido que Ira prometer mundos e fundos, ira invocar os desejos mais profundos de piedade, até mesmo ameaçar contra a própria vida se a vitima não o perdoar e garantir que ira continuar com ele e não o denunciar.

    Por um tempo o agressor para realmente, mas depois volta e volta sempre pior.

    Essas atitudes desses lixos humanos que acabam prejudicando, estigmatizando os homens de verdade que ficam com má fama gratuita de machistas e muitas vezes recebem todo ódio de um grupo ou uma sociedade.

    Sinceramente tem horas que a família mais atrapalha do que ajuda, algumas pressionam tanto os filhos com valores e princípios tão castradores, patriarcais, sexistas que os filhos crescem acabam internalizando isso e vão multiplicando esses comportamentos com outras pessoas como uma epidemia.

    Se a mulher é agredida e o casal tem filhos ela não está fazendo bem em manter o casamento com o agressor por causa dos filhos, justamente o contrario por causa dos filhos é que ela deveria se separar do agressor, para que ela tenha um futuro e possa apoiar os filhos.

    Sobre nós homens, muito raramente somos vitimas de agressões físicas de mulheres, eu só li um caso que aconteceu em outro pais através do jornal.

    Já li alguns casos de professoras que assediaram alunos e nunca foi levado muito a serio era sempre mais coisas do tipo nossa que sortudo, quando a delegacia recebia a denuncia tinham que até insistir em registrar a ocorrência, pois os policiais diziam que não era coisa de homem, alguns deram resultados outros não.

    O homem sofre sim, muitas pressões e agressões psicológicas de tudo que é lado, da família dos amigos da sociedade e principalmente de si próprio.

    Muitos de nós por causa desses ensinamentos errados da sociedade, acabamos nos reprimindo, não dizemos o que sentimos se temos um problema e perguntam o que foi? dizemos não é nada eu só estou um pouco cansado, mas esse “to só um pouco cansado” significa um universo de coisas que reprimimos que as pessoas não fazem ideia.

    Às vezes vamos conversar com nossos amigos homens e o que eles falam? – ah bichão isso ai né nada não, tu tem que sair para curtir, tomar umas brejas, comer umas mina e pah, ouvir uns black, ir nuns funk já era, sacou?

    Alguns vão por essa caminho e além de aumentar sua dor podem provocar dor em outras pessoas, outros dizem: – pra que eu fui falar, não adianta esse cara não sabe de nada vou é ficar quieto e aguentar calado que é melhor!

    Eu mesmo tenho me surpreendido muito em comportamentos que eu tenho que passei a perceber que eram muito sexistas e erados, depois de me envergonhar por tomar conhecimento deles tão tardiamente estou procurando mudar.

    Às vezes o homem quer falar, por para fora, mas ele está tão travado, tão travado que a única coisa de desabafo que ele ainda com medo fala é “ é foda, ou poxa vida”.

    São poucos homens que procuram ajudam a eles o meus respeitos e aos que não procuram a minha torcida e esperança para procurarem.

    Às vezes você da azar e vai procurar ajuda e te fazem um discurso daqueles que você acredita e diz: – puxa, finalmente to salvo! agora as coisas vão começar a acontecer, só que colocaram mais minhocas na sua cabeça e você acha que está certo e está errado.

    O meu direito termina onde o seu começa, se eu quero que você faça uma coisa e você não quer, paciência, bola pra frente, eu não posso te forçar a nada, não vivemos mais nos tempos medievais, onde isso era a única forma de viver, mas algumas pessoas ainda vivem acreditando nessas verdades do passado.

    Por que? Por causa da criação, por causa da falta de recursos, por causa da educação, por causa das pessoas com quem conviveram?

    São muitos fatores, o negocio é começar de novo, reiniciar fazer um trabalho de base, examinar o máximo de comportamentos que possuímos, nossos pensamentos, nossas ações e ver o que está certo e erado, o que da para melhorar, buscar escolhas mais saudáveis, nos questionar.

    Seguimos!

    • foi um segundo texto!! Obrigada pelas palavras =)

      ps: e tbm acho que merece um texto falando só sobre a familia q “apoia”

      • Rogih

        Era para ser um comentário de 4 linhas só, mas quando vi meus dedos estavam poluídos digitando epileticamente sem parar 🙁

  • Mika

    Eu estava deixando pra comentar no final dos 4 textos, porque tenho mania de colocar o carro na frente dos bois e já querer discutir uma coisa que talvez ainda será publicada… rs. Entretanto, me surgiu uma dúvida em relação aos motivos enumerados aqui. No item 3 – Culpa, você citou a frase “Se você me deixar, eu vou matar todos eles”. Imediatamente me chamou a atenção o fato de não ter mencionado um motivo que considero muito comum nos relacionamentos abusivos: O MEDO. Ameaças de morte são o extremo do abuso. O medo é real e vai muito além da culpa ou da baixa autoestima, aspectos puramente psicológicos. Não seria ele um motivo importante nesse caso?

    PS: Estou gostando muito dos textos. Parabéns!

    • N.S.

      Oi, Mika! Como você está? =) Aqui, eu citei mais os motivos que faz com que uma pessoa permaneça em um relacionamento violento, mas que essa pessoa não percebe que é assim ou atenua a gravidade dele. Concordo com você, quando eu falei sobre o tópico da resistência, poderia ter falado mais claramente do medo. Mas acho que há uma razão por eu não ter falado: em geral, o medo ele não vêm sozinho, mas é consequência de algum outro tópico citado. Quero dizer que o medo é um sintoma de outra doença. Pelo que pude perceber nos casos que vivenciei, jamais vi o medo sendo vivenciado como razão única de permanência nesses contextos. Ainda que o Datena aja como se fosse…

      Em relação ao medo, acho que é isso. A mulher que têm medo do seu parceiro já tem a noção do contexto abusivo vivenciado, mas não sabe a razão que a faz permanecer nisso. Ou seja, ela já não é mais cega e sabe bem o risco constante que corre. Para essa mulher, o próximo texto (dicas de como se libertar de um relacionamento violento) será mais útil.

      • Mika

        Ok. Mas você, melhor do que ninguém, sabe que relacionamentos desse tipo são bem mais complexos do que os ditos “normais”, e que diversos fatores atuam ao mesmo tempo compondo essa relação doentia. Não vejo como é possível separar os fatores psicológicos do sentimento de medo provocado pelas ameaças constantes à integridade física da família, pela dependência financeira, ou a legítima preocupação com o futuro dos filhos. Você é uma mulher inteligente e com grande vivência na área e, tenho certeza, não irá incorrer no mesmo chavão repetido pela maioria, que diz que a culpa é sempre da mulher, que aceita o parceiro violento por baixa autoestima ou comodismo (embora existam inúmeros exemplos desses por aí). A infeliz se casa com um traste, não consegue sair da relação por inúmeras razões, e a culpa é sempre dela?
        Desculpe-me insistir na questão, mas acharia importante que colocasse sua opinião sobre isso, aqui nos coments ou num dos próximos textos. 😉

        • N.S.

          Mika, relações venenosas como a tratada no primeiro texto, são realmente complexas. As variáveis são inúmeras e as influências também. Quando você fala da dependência financeira, você parte do pressuposto de que as agredidas não possuem renda própria. Quando você fala da legítima preocupação com os filhos, você parte do princípio de que todas têm filhos com seus parceiros. Mas você se surpreenderia com a quantidade de mulheres que ganham mais que seus esposos, não têm filhos, mas aceitam ser agredidas constantemente. O que explicaria isso, então? E olha que nem estamos falando sobre as relações homoafetivas…

          Eu lembro de uma situação. Eu estava de plantão na DP e chegaram duas mulheres. Uma estava sendo praticamente arrastada pela outra. Quando eu vi aquela cena, meu primeiro impulso foi de pensar que aquela arrastada ali seria a vítima. Começo a conversar com ela. Foi quando, então, percebi que a mulher “arrastada”, na verdade, era a mãe da real vítima. A agredida havia levado sua mãe, para apoiar a sua ação de denunciar. Ela trabalhava havia anos em uma multinacional, mas não podia gerar filhos. Isso frustou de tal forma seu marido, que passou a descontar nela sua decepção. O que ela mais queria naquele momento, segundo ela, era ser acolhida por sua mãe. E a mãe dizia que a culpa, na verdade, era dela, por não ter cumprido com as expectativas de um casamento, ainda que não dependesse dela. É isso o que acontece quando nos pautamos em culpa.

          Veja bem, Mika. As vítimas pobres, que dependem financeiramente do agressor e tem filhos com eles, são paralisadas pelo medo. E com elas, o trabalho terapêutico deve ser muuuuito mais intenso, mas ainda assim poderá ser efetivo. E esse trabalho irá se pautar pela assunção de responsabilidade e não pela culpa.

          A psicologia não tem como base o elemento culpa ao tratar de relacionamentos. Não há certo e errado e nem escolhas melhores ou piores. O que há são histórias que precisam ser vivenciadas e em algum momento a agredida deverá se responsabilizar por si mesma e por suas escolhas. Da mesma forma, ocorre com o agressor. Em algum momento, ele deverá tomar consciência do quanto suas ações são prejudiciais e também deverá se responsabilizar por elas.

          Então, não. Não trato aqui sobre a culpa.

          • Mika

            “Quando você fala da dependência financeira, você parte do pressuposto de que as agredidas não possuem renda própria. Quando você fala da legítima preocupação com os filhos, você parte do princípio de que todas têm filhos com seus parceiros.”

            É patente que relacionamentos abusivos independem de classe social, cultura ou religião, e eu seria muito ingênua ao afirmar que a razão de essas mulheres se manterem nesses relacionamentos seria a dependência financeira, ou mesmo que são os filhos que as impedem de saírem deles. Também conheço casos (inclusive aqueles cuja vítima é o homem) em que o abusado, ou ambos, são financeiramente independentes e de bom nível cultural. O que eu quis dizer é que em um razoável número desses casos, o fator preponderante é o medo da violência extrema, seja contra si ou seus familiares (e longe de mim renegar os outros fatores citados por você). A vítima vive uma rotina de violência física ou psicológica até suportável, mas é regularmente bombardeada com ameaças do tipo “Eu já te avisei…”, “Não adianta fugir, eu te encontro até no inferno…”, “Uma hora você vai ter que dormir…” (Nossa, acho que essa é a pior, ameaçar que vai pegar a pessoa desprevenida, quando ela estiver dormindo). Muitos desses casos necessitariam da tutela do Estado, que deveria ter condições de proteger a vítima, mas nos quais raramente é possível.

            Pra finalizar, não discordei de você em nenhum momento. Apenas quis alertar alguns leitores mais ávidos em condenar do que compreender, que a vítima de abuso nem sempre é a principal responsável pela própria sorte, como se levar uma vida afetiva miserável fosse uma simples questão de escolha, o que nem sempre é verdade.

          • N.S.

            Concordo, Mika. Acho que isso é mal do ser humano: querer sempre responsabilizar alguém. E não é mesmo uma simples questão de escolha. A tutela do Estado até que funciona, sabe? Mas sabe o que eu mais via? Desconhecimento. Por exemplo, a vítima ia até a DP denunciar. Mas ela não pedia nenhum tipo de medida protetiva, como distanciamento da vítima ou afastamento do agressor do ambiente familiar. Ou seja, era jogada a própria sorte.

            Foi pensando nisso que fiz o próximo texto, Mika… É muito triste quando você vê que a pessoa tolera certas situações, que nem ela mesma sabe que há outras saídas mais seguras. Pra você ter uma noção, em todo o tempo que trabalhei na Delegacia Especializada, apenas uma denúncia não obteve êxito (contando apenas os casos em que as mulheres se recusaram a reatar com seus parceiros). P.S.: Como eu me afastei, não sei o fim de nenhum desses casos.

            Mas eu gostaria muito de saber sua opinião. Por que você acha que as pessoas, em geral, culpam a própria vítima? (Eu até alertei sobre isso no primeiro texto, para que ninguém viesse com sete pedras na mão.) Você acha que é por causa do modelo cultural, que ainda é predominantemente machista? Ou por que as pessoas se consideram tão donas de si e sobem num altar, que acham que isso jamais aconteceria com elas? Sabe, não tenho minha opinião formada. Gostaria de ler o que tem a dizer. =)

          • Mika

            Que bom saber que o Estado funciona em casos como esses. Às vezes, esse é o único apoio efetivo que a vítima encontra.

            Pensando na sua pergunta cheguei a uma conclusão interessante, mas não sei se verdadeira.

            Ao contrário dos contos de suspense, onde o culpado sempre é o mordomo, no caso da violência doméstica, a culpa é sempre da vítima… rs

            O AGRESSOR, seja homem ou mulher, sempre vai culpar a vítima. É nela que ele desconta as frustrações…

            A VÍTIMA se culpa por acreditar que se fosse ou tivesse agido diferente não sofreria a agressão…

            O ESTADO sabe que o errado é o agressor, mas acusa a vítima de indulgência por resistir em denunciá-lo…

            O OBSERVADOR (família e amigos), embora também saiba que o errado é o agressor, costuma culpar a vítima pela violência sofrida por julgá-la conivente com a agressão, porque o perdoa recorrentemente. É a popular “mulher de malandro”.

            Relacionamentos abusivos onde só ocorre a tortura psicológica são tão ou mais frequentes do que aqueles com agressão física. Entretanto, como as marcas não ficam evidentes, passam despercebidos da maioria das pessoas próximas ao casal. Além disso, são muitas vezes tratados apenas como “relacionamentos desequilibrados”, onde a vítima vira “fraco” ou “bonzinho” e o agressor vira “dominador”, “forte” ou “controlador”.

            Você me pergunta se essa condenação pública seria fruto do “Modelo Cultural Machista” ou de uma falsa “certeza de imunidade”, como se autoestima elevada fosse vacina pros percalços e dissabores da vida. Minha opinião é que são as duas coisas. O mundo ainda está sob o domínio das religiões e elas são extremamente machistas, e a imaturidade de muitos jovens os faz acreditarem que a autoestima elevada é um escudo indestrutível contra qualquer tipo de violência, sem se darem conta de que ela não possui forma e não escolhe cara. E que todos nós até já podemos ter vivido (ou estar vivendo) uma relação
            abusiva, tanto no papel de agressor quanto no de vítima.

      • Hamilton

        Olá… só vim parabenizar o seu texto. Acho muito legal esse trabalho que estão fazendo. Com certeza vai ajudar muitas pessoas.

  • Laura Silva

    Teus textos estão me lembrando muito de um livro que li do Padre Fábio de Melo, ser humano incrível que eu admiro muito, em “Quem me roubou de mim?” ele fala sobre o sequestro da subjetividade e dos cativeiros que as pessoas criam para si mesmas ao entrarem em relacionamentos abusivos. Relata várias histórias verídicas desse tipo de sequestro. É clichê e até repetitivo dizer, mas vejo o quanto a falta de autoestima pode ser prejudicial a uma pessoa, sei que as coisas são bem mais complexas do que isso, mas o modo como a pessoa se vê tem um grande peso no que pode ser a raiz do problema, pois como bem ele define “ser pessoa é ter posse de si mesmo”,

    “Toda relação que priva o ser humano de sua disposição de si, de sua pertença, ou seja, a capacidade de administrar a própria vida, de alguma forma caracteriza-se como”sequestro de subjetividade”.

    “(…)”A partir desta forma de sequestro nasce o mal-estar psicológico, o sofrimento que não tem localidade no corpo, mas possui o poder de adoecê-lo, fragilizando o ser que sofre, uma vez que o sequestro lhe retira da centralidade de suas próprias decisões.

    São muitas as modalidades de sequestro de subjetividade. Qualquer forma de relação humana corre o risco de se transformar em roubo, em perda de identidade, basta que as partes se percam de seus referenciais e se ausentem de si mesmas. “

  • Bia

    Estou gostando muito dos textos N. S., parabéns!

  • Abel Caim

    Eu trai toda vez que me sentia carente. Me envolvi com muitas mulheres, inclusive casadas e namorando. Elas traem muito. Agora terminamos e sinto falta de ter alguém. Como superar esse desapego?